o homem na calçada
- Daniela Tenorio
- 13 de jun. de 2019
- 1 min de leitura

O homem na calçada caminha, passada por passada, sem olhar pro lado.
Está pensando no passado que se deu a passos largos e que lentamente passa em sua mente, as coisas que ficaram ausentes e , ao mesmo tempo tão presentes.
De tanto pensar, tropeça. As pessoas ao seu lado jorram risinhos de canto de boca, mas ninguém se importa com o homem na calçada caído de pensar e cansado de tropeçar.
Levanta-se e continua. A calçada toda torta, toda estreita .
Mas não muda de trajeto, não muda de calçada, se equilibra ali, nas tortuosidades, na calçada que conhece bem , tão incômoda aos seus pés. Ele, no fundo gosta dela: Da calçada torta, da calçada estreita, do orgulho de atravessá-la e não cair, da frustração e da vergonha de quando uma pedrinha o impede de seguir.
Não sabe o que fazer para mudar de trajeto.
Acostumou-se com as pedras encrustadas e mal colocadas. As marcas do seu tropeço , em vez de mudar de caminho, prefere trocar os sapatos.
O homem que caminha na calçada, sente prazer em desequilibrar.
Um dia, consertaram a calçada. Ficou rente, possível de caminhar.
Nunca mais vi o homem na calçada.
Onde será que ele está?
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